Eduardo Gomes
Diário de Cuiabá
Mesmo sem mandato desde fevereiro de 2015 e carregando uma pesada pecha que assumiu em delação premiada, o ex-deputado estadual José Riva foi o grande vencedor na eleição para a direção da Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM), disputada na segunda-feira, 2 de outubro.
O presidente escolhido foi Leonardo Bortolin (MDB), o Léo , prefeito de Primavera do Leste (a 240 km de Cuiabá), mas a vitória foi de Riva, que no momento não tem interesse pessoal na máquina eleitoral da entidade municipalista, pois jamais concorreria com sua filha e deputada estadual Janaína Riva (MDB), para quem o zeloso papai costurou o desmoronamento do poderio de Neurilan Fraga, que, desde 2015, acumulou vitórias para a presidência da AMM, mesmo sem ser prefeito. Eleição na entidade municipalista terá reflexos em 2026 e até lá Janaína terá uma AMM para chamar de sua.
No final de julho, faltando mais de dois meses para a eleição na AMM, Riva disse que Léo venceria com 70 votos. O ex-deputado bateu na trave. O prefeito de Primavera cravou 68 e Neurilan não foi além de 58.
Riva tinha em mãos, e mais importante ainda, em mente, o posicionamento dos prefeitos. Sabia quem rezaria por sua cartilha e quem optaria pelo continuísmo com Neurilan.
Conversando com o repórter, Riva revelou que: “quase toda a campanha do Léo é feita no meu escritório. Ele é muito amigo da Janaína. Os dois são jovens”. Nenhum político em Mato Grosso concentrou tanto poder quanto Riva ao longo dos 20 anos em que dirigiu a Assembleia, ora na Presidência ora na Primeira Secretaria, de 1995 a 2015.
Naquele período, prefeitos e vereadores faziam romaria ao seu gabinete não somente para o beija-mão, mas, também em busca de interesses para seus municípios e até mesmo para si ou parentes.
A sucessão política é lenta. Boa parte dos prefeitos é da era do beija-mão, alguns eram vice-prefeitos e vereadores, mas nem todos apoiaram Léo, o seu candidato. Foi assim com Zé Carlos do Pátio, de Rondonópolis; com Uilson José da Silva, de Nova Lacerda; Ronivon Parreira, de Ribeirãozinho; Seluir Peixer, de Aripuanã; Professor Mauto, de Salto do Céu e outros.
Riva sabia muito bem desse cenário, mas confiava que a maioria estaria com seu candidato.
A confiança de Riva começava pela presença do deputado federal Juarez Costa na Presidência de Honra na chapa de Léo – Juarez deve sua primeira eleição para prefeito de Sinop a Riva, do qual era liderado na Assembleia, onde cumpria mandato; Marcelo Aquino, de General Carneiro, vem de berço político umbilicalmente ligado a Riva; Carlos Sirena é prefeito de Juara, o berço político de Riva; Egon Hoepers viu Santa Rita do Trivelato nascer embalada por Riva. Tranquilidade, confiança, segurança e uma boa dose de discrição guiaram Riva durante a campanha.
Neurilan sempre estava às ordens para disputar eleição na AMM, mas, na entidade, nos últimos dois anos, surgiram vozes contrárias ao continuísmo, sendo que algumas de dezenas de prefeitos eleitos em 2020, mas que foram impedidos de votar por força da mudança estatutária.
Riva percebeu a situação e votou Léo em cena reforçado por Janaína na condição de defensora de sua candidatura. O governador Mauro Mendes (União) e a bancada federal procuraram se afastar da disputa, mas o deputado estadual Dilmar Dal’Bosco (União, líder do Governo, não somente abraçou Neurilan como ganhou a condição de ser presidente de honra da chapa situacionista.
Mesmo enfrentando oposição, Neurilan não dava sinais de fraqueza e sua voz era ouvida por um expressivo grupo político, dado à sua habilidade e articulação. Porém, Riva tratou de miná-lo.
A mudança estatutária na AMM foi uma jogada de Neurilan em 2020. Naquele ano, Mato Grosso elegeu dezenas de prefeitos para o primeiro mandato; todos foram diplomados, mas impedidos de votar na AMM, porque Neurilan antecipou a eleição de janeiro de 2021 para dezembro de 2020. A antecipação tirou de cena prefeitos que não tinham nenhuma relação com Neurilan, o que facilitou sua vitória para o quarto mandato, devidamente aumentado de dois para três anos.
Com essa manobra, dentre outros, não puderam votar Kalil Baracat (Várzea Grande), Roberto Dorner (Sinop), Wander Masson (Tangará da Serra), Adilson Gonçalves (Barra do Garças), Chico Gamba (Alta Floresta), Miguel Vaz (Lucas do Rio Verde), Mariano Kolankiewicz (Água Boa), André Bringsken (Vila Bela da Santíssima Trindade) Jo Soares (Santa Cruz do Xingu) e Alexandre Lopes (Campo Verde).
O eleitorado da AMM é pequeno. Não era preciso mídia nem barulho. Bastava um corpo a corpo, coisa que Riva domina como ninguém.
Para reforçar o trabalho de Riva, Léo envenenou Neurilan com uma enxurrada de ações judiciais, que evidenciaram descompasso do presidente, que sequer conseguiu organizar a papelada para tentar se manter no cargo.
Riva não comemorou a vitória em público.
Não foi ao vencedor, mas o recebeu em casa, pois a primeira visita de Léo foi para agradecê-lo.
Inconscientemente, o presidente eleito da AMM restabeleceu o antigo beija-mão.
Nunca perdeu o poder: José Riva desbancou Neurilan Fraga e articulou a eleição de Léo Bortolin para abrir caminho à sua filha
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